5.11.09

Aquela melodia.

A música acabou, o silêncio cobriu a sala. Cobriu a sala de sorrisos, sorrisos cíninos e maldosos, sorrisos não sinceros e sem piedade, sorrisos ingratos!

O piano continua intacto, a nossa música eleva-se levemente na minha memória mas os violinos romperam as suas cordas; acabou o espectáculo. Senta-te, com o teu copo e a tua postura fatais, o teu sorriso doce e esse olhar que me perfura a alma como de algo interior se tratasse; vamos mudar de palco, morrer numa ópera, sofrer por acabar tudo assim. Vamos onde quiseres, desde que me leves; faz-me o que quiseres, desde que me desejes; diz-me o que quiseres, desde que não magoes. Eu pertenço-te!

Domina todo o meu ser como se domina um animal, deixa-me atacar e ferir tudo, deixa-me morder os teus lábios, gretá-los e cansar-te; fica comigo, só esta noite, não quero mais que este momento, é agora que eu preciso de ti; posso não te ter nunca mais, mas esta noite serás meu. Farás parte dos meus sonhos e da minha pequena cabeça, és o motor que comanda este corpo; preciso de álcool que me derrube o fígado e veneno que mate esta esperança inacabável.

Já chega! Deixa-me solta, larga os meus ombros e desmaia de vez! Desmaia, morre, sente como um homem... Voa, eu levo-te nas minhas asas.

Vou reparar o piano, para voltar a drogar-me nele, naquelas notas que me sufocam e me adoecem, naquele vício que agora é só meu... Deixa o copo lá em cima, vou afogar-me no que restar lá dentro.

Sarinha*

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